Lamento que o relato abaixo, fundamentado em conhecimentos que adquiri ao longo de muitos anos, não possa ser acompanhado por evidências materiais, o que, evidentemente, restringe sua divulgação. Todo cuidado é pouco!
1. O PT foi fundado em 1980, mas sua concepção é bem anterior e começou a tomar forma ao final dos anos 70, particularmente em 1979, após a Anistia, quando do retorno ao Brasil de vários ex-integrantes de organizações revolucionárias de esquerda.
Pode-se dizer que, originalmente, três grandes correntes promoveram a criação do PT:
1.1 - A sindicalista, nucleada na região do ABC, já muito forte à época; nesse particular, recorde-se que o sindicalismo “agressivo” estava praticamente paralisado desde 1964, quando da extinção do Comando Geral dos Trabalhadores, dirigido por Hércules Corrêa e vinculado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) de Luiz Carlos Prestes, mas retomara sua força, principalmente a partir de 1978, quando ocrreu a greve da Scania-Vabis, supostamente a primeira desde a edição do AI-5, em 1968;
1.2 - O chamado clero progressista, que, dominando a maior parte das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), permitiria a difusão, por praticamente todo o território nacional, do ideário petista; recorde-se que a esquerda clerical, nos anos 50 / 60, tivera fulcro na Ação Católica (AC), que atuava por meio das JEC / JOC / JUC (Juventudes Estudantil, Operária e Universitária Católicas), mas logo aderiu ao “revolucionarismo” tendo mudado seu nome sucessivamente para Ação Popular (AP), Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e APML do B (“do Brasil”); mas a luta armada foi ineficaz, e a esquerda católica parece ter passado a orientar-se pelos princípios de Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano e tido como o maior ideólogo comunista depois de Lênin; trata-se da “Guerra de Posições” (infiltrar-se no maior número possível de agrupamentos sociais – sindicatos, escolas, partidos políticos, fábricas, associações de bairros etc. – organizá-los e doutriná-los para a causa comunista) e a “Guerra de Movimentos” (mobilizar essa massa humana, estruturada em setores municipais, estaduais e federal, com reivindicações progressivas, contra o “governo burguês”, enfraquecendo-o até derrubá-lo); e
1.3 - As organizações subversivas adeptas do trotskismo e muitos militantes ou ex-militantes de outros grupos de esquerda, adeptos ou não da luta armada, ex-exilados ou não. É sobre esse segmento que pretendo aprofundar minhas considerações, mais adiante.
2. Progressivamente, o PT atraiu outras correntes, tais como, dentre outras de longa listagem:
2.1 - A dos intelectuais e artistas de esquerda, que, adeptos irrestritos do marxismo-leninismo – até pelo receio do “patrulhamento ideológico”, que expulsa da ribalta os “não-esquerdistas” -, viram no PT o protótipo do eterno sonho comunista: o “partido de massas” capaz de conduzir uma revolução que implantasse a ditadura do proletariado; a presença desse segmento, se, por um lado, de certa forma contradizia a imagem que os criadores do PT pretendiam cultivar, de uma agremiação “exclusiva de trabalhadores”, ou “sem patrões”, por outro, agregava maior densidade ao partido, na medida em que indivíduos conhecidos e admirados pela sociedade por seu saber e/ou capacidade artística adotavam aquela plataforma política;
2.2 - Consideráveis parcelas do movimento no ensino, com seus ramos estudantil – União Nacional de Estudantes (UNE), Uniões Estaduais de Estudantes (UEE), Uniões Metropolitanas de Estudantes Secundaristas (UMES) – de professores, principalmente universitários (Sindicatos, Associações), e de funcionários de estabelecimentos de ensino; e
2.3 – Funcionalismo público federal, estadual e municipal, por perceber corretamente que o PT, chegando ao poder, ampliaria sobremaneira a presença do Estado em todos os níveis da administração pública, garantindo assim o “status quo” e cada vez mais privilégios para esse segmento, avesso aos riscos da iniciativa privada.
3. Se analisarmos a trajetória do PT no poder, entre 2002 – primeira eleição de Lula – e hoje, constataremos que essas correntes continuam muito atuantes, e outras foram cooptadas:
3.1 - O sindicalismo aparelha toda a máquina administrativa do Estado;
3.2 - O clero progressista prossegue ativo, como se tem podido observar nos cada vez mais freqüentes conflitos sociais, como os promovidos pelo MST e os relativos a questões indígenas;
3.3 - Notáveis parcelas da intelectualidade e da classe artística continuam a deixar patente sua adesão ao PT sempre que podem;
3.4 - A presença do PT no ambiente de ensino, entre estudantes, professores e funcionários, de tão marcante, dispensa comentários;
3.5 – O funcionalismo público foi aquinhoado com um aumento brutal de cargos – a maioria de confiança e de elevada remuneração – que cada vez mais onera o orçamento da União; e
3.6 - Cooptaram-se para a esfera de influência do PT outros contingentes humanos não originariamente integrantes do mesmo, mas de grande peso social: de um lado, por meio dos demagógicos programas sociais tipo bolsa-família, a população de baixa renda, que representa uma quantidade imensurável de votos; de outro, pelo tradicional “é-dando-que-se-recebe”, a classe política, hoje quase totalmente submissa a Lula, como se pôde constatar nos episódios de absolvição de Sarney, aprovação de Toffoli para o STF e assim por diante. “Nunca dantes na história deste país” nossa maldita herança patrimonialista ibérica esteve tão exuberante, do Congresso Nacional às mais humildes Câmaras de Vereadores, perpassando os demais poderes.
4. Abordemos por fim a questão do pouco conhecido vírus trotskista, que infecta o PT desde seu nascedouro.
4.1 – Lev Davidovich Bronstein – Leon Trotsky – lutou ao lado de Vladimir Ilich Unianov – Lênin – na Revolução Russa; foi o consolidador do Exército Vermelho e co-fundador da III Internacional Comunista, com Lênin, de quem deveria ter sido o sucessor em 1924, quando de sua morte. Mas as manobras políticas levaram ao poder Josip Vissarionovich Djougachvilii – Stalin – que comandaria a União Soviética até morrer, em 1953. Trotsky foi perseguido e exilou-se em Coyoacán, no México, num bunker, dentro do qual veio a ser assassinado, em 1940, por Jaime Ramón Mercader del Rio – um espanhol recrutado pelo serviço secreto russo -, supostamente a mando de Stalin. Todavia, em 1938, fundou, em Paris, a IV Internacional, que tem como “bíblia” seu mais conhecido texto – o “Programa de Transição”.
Quando da defenestração de Trotsky, em 1924, os Partidos Comunistas de todo o mundo – “seções da III Internacional” – sofreram cisões: os admiradores de Trotsky se desfiliaram e criaram novas organizações, geralmente chamadas de “Oposições de Esquerda”.
4.2 – Após a morte de Trotsky, a luta por sua sucessão foi grande. Inicialmente a IV Internacional foi conduzida pelo grego Michel Raptis, ou “Pablo”, mas logo a seguir começou a cindir-se em diferentes Centros Irradiadores, aos quais os seguidores de Trotsky foram se filiando da maneira mais variada, num grande número de países. Observe-se que até hoje o trotskismo ainda não assumiu o poder em um país específico, como ocorreu com o comunismo soviético e o chinês, dentre outros.
4.3 – Á época da fundação do PT, atuavam no Brasil e se encastelavam no PT os seguintes grupos:
- a Convergência Socialista, também conhecida como “Alicerce”, filiada a um centro de irradiação liderado pelo argentino Hugo Bressano, ou “Nahuel Moreno”, pelo que seus seguidores se intitulavam “morenistas”; hoje está legalizada e fora do PT - trata-se do PSTU;
- a Organização Quarto-Internacionalista, ou “Causa Operária”, vinculada ao centro criado pelo boliviano Guillermo Lora; também está legalizada – é o PCO;
- Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT) – uma das mais antigas organizações trotskistas brasileiras; ligava-se ao “Secretariado Latino Americano da Quarta Internacional - SLA”, criado pelo argentino Homero Rômulo Cristalli Frasnelli, ou “Juan Posadas” – pelo que seus adeptos se intitulavam “posadistas” - e editava o jornal Frente Operária; aparentemente dissolveu-se, não há indícios de sua atuação atualmente, ao menos não com esse nome;
- Democracia Socialista (DS) – subordinada ao Secretariado Unificado da IV Internacional (SU), dirigido pelo belga Ernest Mandel – seus militantes eram os “mandelistas”; forte no Rio Grande do Sul e responsável pelo Jornal Em Tempo; o SU disputava com outro centro francês (mencionado no tópico seguinte) o título de legítimo sucessor de Trotsky; no Brasil, alguns dos militantes da DS, insatisfeitos, desligaram-se e fundaram o PSOL; outros continuam no PT; e
- Organização Socialista Internacionalista (OSI) – ramo brasileiro da antiga “Quarta Internacional – Centro Internacional de Reconstrução”, ou QI-CIR, francesa, fundada por Pierre Lambert – patrono dos “lambertistas”; responsável pelo jornal O Trabalho - http://www.jornalotrabalho.com.br/ ; em 1993, supostamente a IV Internacional foi unificada na França (onde, afinal, foi criada por Trotsky), por ação dos “lambertistas”, em detrimento dos “mandelistas” – daí o fato de a DS não ser vista no Brasil como a seção “oficial” da IV Internacional – essa posição seria ocupada pela OSI, como consta no frontispício de seu jornal. É o mais forte e atuante grupo trotskista no Brasil, e continua encastelado no PT.
Quem Somos
O jornal O Trabalho é o órgão da seção brasileira da 4ª Internacional, a corrente O Trabalho do Partido dos Trabalhadores. Lançado em 1º de maio de 1978, em plena ditadura militar, o jornal se colocou desde o começo a serviço da organização dos trabalhadores em um partido político próprio e em uma central sindical independente dos patrões e do governo.
Hoje, quase 3 anos de o governo Lula, que ajudamos a eleger, uma questão se coloca. Qual a origem da crise que atravessa a nação e o PT?
A Corrente O Trabalho do PT, seção brasileira da 4ª. Internacional, sempre se recusou a assumir cargos no governo. Mantivemos nossa independência porque, junto com milhares de trabalhadores, fundamos o PT para a luta da classe trabalhadora e não para colaborar com o capital. Por isso, hoje, reafirmando o Manifesto de Fundação de 1980, reivindicamos a continuidade do PT com base nos compromissos inscritos em seu Manifesto.
Na situação concreta do Brasil, como Corrente OT do PT –que em qualquer circunstância combate pela independência das organizações - nos pronunciamos pela ruptura com a burguesia e o imperialismo, e exigimos:
-Ruptura com o FMI; não pagamento da dívida;
-Ruptura das alianças com os partidos burguesas. Fora os ministros capitalistas do governo
-Um verdadeiro governo do PT para atender as reivindicações do povo trabalhador
As páginas de nosso jornal cobriram e participaram da luta contra a ditadura e dos combates desenvolvidos em escala internacional pela classe operária e a juventude. O Trabalho esteve presente na luta pela construção do PT como um partido sem patrões e na fundação da CUT. O Trabalho continua presente na luta dos trabalhadores, por sua emancipação.
Convidamos o (a) companheiro (a) a acompanhar e contribuir com essa discussão, enviando-nos suas sugestões, críticas e opiniões.
A 4ª Internacional
Fundada em 1938, sob direção de Leon Trotsky, a 4ª Internacional é herdeira do combate de revolucionários como Marx, Engels e Lenin. Ela continua o trabalho desenvolvido pelas três primeiras Internacionais, cada uma a seu tempo, na organização política da classe operária.
Depois de um período de crise a partir dos anos 50, que levou a sua destruição como organização mundialmente centralizada, a 4ª Internacional foi reproclamada em 1993. Os trotskistas não têm interesses distintos do conjunto da classe operária. Por isso, a 4ª Internacional desenvolve sua atividade junto com outros militantes, das mais diversas origens, que também defendem uma política independente, no quadro do Acordo Internacional dos Trabalhadores (AcIT).
Um dos mais basilares princípios do trotskismo é o internacionalismo proletário. Todas as organizações trotskistas se dedicam com afinco à manutenção de laços com suas congêneres, no maior número possível de países. São também muito mais atuantes em ambiente urbano do que no campo. Observe-se, nesse particular, que o MST, atuante no meio rural, é muito mais “maoísta”, como seu similar peruano “Sendero Luminoso”, do que trotskista. Mas para o comando do PT, não importa muito a “linha” a que esses militantes mais aguerridos se filiem, e sim a eficácia de suas ações em prol da causa comunista.
Na América Latina, presentemente, vemos estabelecer-se pari passu uma forma de internacionalismo de esquerda. Como nos anos 60, origina-se de Cuba (lembremo-nos da Conferência Tricontinental de Havana, de 1966, quando, por obra de Fidel e Che Guevara, nasceram a OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina e a OLAS – Organização Latino Americana de Solidariedade, que fomentaram guerrilhas comunistas em dúzias de países). A pátria de Fidel, entretanto, permanece, desta vez, nos bastidores, lançando ao proscênio seu títere venezuelano Hugo Chaves. Este, discípulo aplicado dos ideólogos cubanos, já arrastou para a senda do chamado “bolivarianismo” – um neo-comunismo latino americano - a Bolívia de Evo Morales, o Equador de Rafael Corrêa, o Paraguai de Fernando Lugo, o Uruguai de Tabaré Vasquez...quem mais? E vem se esforçando ao máximo – “os fins justificam os meios” – para fazer o mesmo com Honduras...com a ajuda do Brasil.
O bolivarianismo não é oficialmente trotskista, mas com certeza provê a infra-estrutura ideal para que este, eventualmente chegando ao poder, assente com mais facilidade e profundidade suas raízes. Basta que o governo de um país influente da região seja conquistado pelos seguidores de Leon Trotsky...
No Brasil, por não haver, desde 2002, “governo burguês” a ser derrubado, a “Guerra de Posições “ passou a ser conduzida pelo próprio poder instituído, com um novo propósito – cooptar a maior parte possível da população para sua causa. Analogamente, a “Guerra de Movimentos” não se caracteriza mais por mobilizações contra o governo: ela passa a ser conduzida por facções aparentemente sem vínculo com o poder - como o MST - contra setores ainda “reacionários” – como os produtores rurais, que, se não podem ser cooptados, têm de ser neutralizados.
Dentro dessa ordem de idéias, a oposição foi silenciada pelas trocas de favores; o Congresso, desmoralizado em episódios de triste memória, até hoje mal-resolvidos; a instância suprema do Judiciário, aparentemente cooptada; as Forças Armadas, alijadas do poder e afastadas das grandes decisões políticas; o Itamaraty, instrumentalizado; a Administração Pública, como já dito, integralmente aparelhada por sindicalistas; a população, desarmada e anestesiada com benesses demagógicas; a imprensa, embora tendo sobrevivido a várias tentativas de controle e censura, ainda está no limiar da perda de sua independência – haja vista o episódio “Estadão” x “Clã Sarney”; a harmonia social, fraturada pela introdução de critérios racialistas em múltiplas atividades humanas; a integridade territorial, ameaçada pelas demarcações de terras indígenas; o direito de propriedade, questionado pelo MST; a soberania nacional, solapada nos episódios da refinaria da Petrobras desapropriada na Bolívia; da empresa Odebrecht, interpelada no Equador; do questionamento das tarifas de Itaipu, no Paraguai; e da prostituição de nossa embaixada, em Honduras.
Por fim, as investidas no sentido de se perpetuar o petismo no poder estão aí à vista de todos, e, se não forem concretizadas por “golpe branco” – referendos de imparcialidade discutível, como em alguns países vizinhos – certamente hão de sê-lo pela anuência e a leniência da sociedade, empanturrada progressivamente com factóides cada vez mais sedutores, como o pré-sal e as Olimpíadas de 2016. Ou seja, conquistam-se, aqui e agora, dividendos políticos concretos, pela oferta, como se também concretas fossem, de abstrações cuja materialização só poderá ser constatada num ainda muito distante amanhã – quando a memória já se terá esvaído e as hipóteses de responsabilização por eventuais insucessos... fatalmente esquecidas.
Em outras palavras, o Brasil parece ser um forte candidato a ingressar nesse anacrônico clube do bolivarianismo; mas se o fizer por meio do PT, será lícito supor, em face do descrito até agora, que possamos nos tornar o primeiro país trotskista da história do mundo. Observe-se que as agressões à soberania mencionadas linhas atrás foram toleradas, precisamente, em nome do “internacionalismo”.
O mundo civilizado, em 09/11/1989 – já lá se vão vinte anos ! – ao derrubar o Muro de Berlim, lançou o comunismo ao lixo da História – marco que, lamentavelmente, o Brasil e várias outras nações parecem não ter visto. E poucos meses depois, em 1990, em São Paulo, reuniram-se os partidos de esquerda latino-americanos, órfãos de Marx – Engels – Lênin – Trotsky – Gramsci – Mão – Fidel – Che e tantos outros, sob a égide do PT e ao lado de organizações como as FARC e o Sendero Luminoso, para criarem o Foro de São Paulo – uma anacrônica “Quinta Internacional”, que tentaria conquistar o mesmo que a Primeira (Marx / Engels, 1864 – 1876) , a Segunda (Engels, 1889-1914), a “Dois e Meio, ou de Viena” (1921, origem da Internacional Socialista), a Terceira (Lenin/Trotsky, 1919 – 1989) e a Quarta (Trotsky, 1938 - ?) tentaram ou vêm tentando inutilmente nos últimos 145 anos. Embora hoje, como aqui relatado, a Quarta pareça estar alcançando sua hora e vez, ao menos no Brasil.
Compreende-se que os comunistas não esmoreçam na busca dos ideais em que acreditam. Afinal, “podemos confiar nos comunistas – eles são comunistas, mesmo!” – como afirmava o médico australiano Frederick Charles Schwarz, criador da Cruzada Cristã Anticomunista, em seu livro de 1960 “You can trust the communists (to be communists)”.
O que não se compreende é o fato de os verdadeiros democratas, quando no poder, não terem a percepção de que os comunistas reivindicam deles, hoje, em nome de princípios democráticos, aquilo que, conquistando o poder, negarão aos democratas, em nome dos princípios comunistas.